- Onde estou, e por que não sinto meu braço esquerdo? – Pensou Mike, que deitado ia aos poucos abrindo os olhos.- Ele acordou doutor, venha ver, ele está abrindo os olhos! – Sibilou uma voz feminina ao seu lado.
Ao descerrar os olhos, uma brancura onipresente lancinou-lhe a cabeça. Tentou levar as mãos até seus olhos, mas algo o fez parar.
- Minha mão esquerda, onde ela está? Meu braço, vocês arrancaram meu braço! Socorro, alguém me ajude! – O menino saltou da cama desesperado. O suporte de soro foi ao chão causando grande barulho.
- Calma! Se acalme, por favor, você está em um hospital, estamos aqui somente para te ajudar! – A moça tentou detê-lo, mas em vão. Outras duas garotas, seguidas de um senhor alto e obeso entraram no quarto, e só então conseguiram fazê-lo parar de se mexer.
A visão estava começando a voltar, e tudo começava a fazer sentido. Ainda estava atônito, porém Mike agora tinha certeza, acabara de ser contido por três enfermeiras e um médico. – Que médico gordo. – Pensou.
Apesar de estar aleijado, sentia-se confortável com a hospitalidade e segurança do hospital. O menino loiro, sentado no leito, tomava uma sopa quando dois policiais entraram no aposento. Ambos de porte mirrado, que sem a farda, provavelmente passariam despercebidos por qualquer bandido. Um deles parecia mais velho que o outro, e tinha um bigode bem escuro à face, enquanto o seu companheiro era visivelmente o inexperiente aprendiz.
- Menino, desculpe incomodá-lo, mas precisamos de algumas respostas. Conte-nos sobre sua família, e como foi parar naquele lugar tão longínquo nesse estado. – Indagou um dos policiais. Porém, Mike não estava preocupado com seus pais, afinal sempre foi um garoto independente. Mas sentiu uma fisgada em seu coração ao lembrar-se de Jhonatan, o menino de pele escura e cabelo crespo que voara do trem, e que ainda poderia estar em algum canto inconsciente.
- Jhonatan! Meu amigo, ele ainda pode estar lá! Vocês precisam ajudá-lo, há um
casal de velhos loucos, eles tentaram me matar, e se o encontrarem vão matá-lo! Por favor, ajudem-no! - Assim que finalizou o pedido, o policial veterano acionou seu rádio, mandando que viaturas fossem verificar o local.- Não se preocupe criança, vamos achar seu amigo. Eram apenas vocês dois? Por favor, conte tudo, precisamos saber o máximo. – Disse o jovem fardado tentando ajudar.
- Criança? – Pensou. Mike contou tudo para eles. Não escondeu nenhum detalhe, relatou sobre o modo como viajavam em cima dos vagões; recordou-se de Jhonny todo costurado, ensangüentado e amarrado a uma cadeira; e não se esqueceu dos velhos, principalmente como perfurou a jugular do maldito.
Algumas horas se passaram após a conversa. Mike continuava deitado na cama do hospital, mas dessa vez, conversando com seus pais que já estavam ao seu lado. A mãe do menino era do tipo, faladeira e preocupada, típica mãe. Já o pai, um alemão alto de poucas palavras. Do tipo que por menor expressão de sentimentos, se torna rubro como um filé de salmão. A conversa da família foi interrompida pelo médico gordo que o segurara horas atrás. Ele chamou seus pais para conversarem fora do quarto, que logo obedeceram. Mike olhava inquieto o médico com seus pais pelo vidro que os separavam. O policial de bigode também estava lá.
- Ei! Vocês, por favor, me contem! Acharam meus amigos? – Gritou Mike. Porém os quatro nem deram bola.
Nesse momento, o conforto do hospital já não era suficiente. Ele precisava saber o que estava acontecendo. As feições dos quatro, enquanto falavam, eram horríveis. Mike não fazia idéia, mas os policiais não haviam encontrado vestígio dos velhos no local. Apenas um trem tombado por troncos, que na visão deles algum engraçadinho haveria de ter colocado, e um casarão ab
andonado, que aparentemente estava desocupado por anos.- Mas meu filho não costuma mentir. Se ele disse, é por que viu algo. – Disse a mãe desesperada sob o olhar sereno do pai.
- Senhora. – interrompeu o médico – Não estamos dizendo que ele está mentindo, mas o menino pode ter distorcido um pouco a realidade, é muito normal nesses casos. Até porque, ele perdeu muito sangue.
- Mas como ele pode ter inventado... E os amigos dele? – Disse olhando para o homem fardado.
- Só vamos saber a história verdadeira quando os encontrarmos, e nós estamos trabalhando nisso – afirmou o policial.
- E agora, o que devemos fazer? – Perguntou o pai.
- Tirem umas férias. Faça-o esquecer de tudo que passou. Verdade ou não, ele não merece sofrer mais por isso. – Disse o policial olhando para o médico, que consentiu com a cabeça.
Mike e sua família resolveram de mudar para uma cidade distante da que viviam. O menino ainda tinha pesadelos durante a noite, e precisava freqüentar uma terapeuta todos os finais de semana. Entretanto, aos poucos sua vida estava voltando ao normal. Já sorria normalmente, e não tinha mais ataques de choro quando alguém comentava o assunto. Certa manhã, Mike estava tomando café sozinho na cozinha, quando sua mãe desceu as escadas correndo e foi até ele com uma faceta transbordando alegria.
- Mikezinho da mamãe, eu tenho uma surpresa, se prepare! – Disse a mãe eufórica como se estivesse falando com um bebezinho, ou um filhotinho de cachorro.
- Será que acharam Jhonatan? – Pensou, mas não disse.
- Você vai ganhar um irmãozinho! - explodiu a mãe. E Mike arregalou os olhos.
- Que bom, mas isso é ótimo! Obrigado mãe! Puxa vida, e o pai já sabe?
- Não, e por que você não vai contar para ele? – o menino deu um largo
sorriso e correu em direção as escadas, e enquanto subia, pensou:- Finalmente as coisas estão voltando ao lugar.
Alguns anos se passaram, e Mirna, irmãzinha de Mike, com um chapéu pontiagudo batia as mãozinhas minúsculas. A menininha estava completando dois anos de vida.
- Palabéns pla Mina... – Todos riam enquanto ela cantava, ou pelo menos tentava.
- Trrrrrimmm. – Mike olhou para porta, finalmente o carteiro havia trazido o presente que comprara na internet para a irmã.
- Pessoal, eu atendo! Um minuto Maninha, guarde o “viva” pra que eu possa ouvir também. – Disse o jovem rindo.
Ao abrir a porta, o carteiro irrompeu um largo sorriso.
- Dê os parabéns à pequena Mirna por mim! – Disse entregando-lhe a correspondência, e o pacote que esperava.
- Obrigado... – Se assustou um pouco pelo carteiro fazer tal pedido. – Cidade pequena é difícil de esconder as coisas mesmo, até o dia do aniversário. – Pensou.
Antes de voltar para a festa, subiu as escadas e colocou o pacote em cima da cama de Mirna.
- Pessoal, não comam meu bolo! – Gritou enquanto descia, mas percebeu a mãe aflita no telefone.
- Mike, os policiais acharam o corpo do Jhonny. – Antes que a mãe terminasse de falar, o adolescente paralisou.
O corpo, ou pelo menos o que restara dele, estava em uma árvore próxima a sua antiga casa. A cabeça, com os olhos e boca costurados, suplantados rente à árvore. Seu corpo mutilado encontr
ava-se dependurado. A barriga estava aberta, e suas tripas passavam pelos galhos como se fosse um enfeite de árvore natalina. Já a gordura amarelada, misturada com sangue, ainda respingava no chão. Mike e sua família, com exceção de Mirna que ficara no carro, observaram a cena horrenda. Mas o adolescente não estremeceu, afinal já havia sofrido tudo que podia com esse caso.- Sinto muito Mike. – Disse o policial, o mesmo inexperiente que o acompanhou no hospital após a tragédia. Ele parecia bem mais maduro dessa vez.
- Tudo bem. – Respondeu.
Ao retornarem para casa, o clima fúnebre parecia ter voltado.
- Gente, tudo bem, sabíamos que era difícil encontrarem ele com vida. – Disse o jovem.
- Sim querido, tenho certeza que teremos notícias melhores com o Jhonatan. – Mike fez que sim com a cabeça.
Mirna olhava para ambos, ela estava curiosa sobre o que conversavam, e para não gerar pânico na menina, o irmão tratou de reanimar as coisas.
- Maninha, por acaso você não quer saber o que eu comprei pra você de aniversário?
- Quelooo!
- Então corre pro seu quarto que coloquei em cima da cama! – A menininha nem esperou que Mike terminasse de falar e subiu correndo as escadas, a cada dois degraus, tropeçava
em um.- Acho que ela vai gostar – Disse o adolescente olhando para mãe. – É a boneca que ela queria do comercial.
- Então ela vai amar! – Disse a mãe rindo.
- Haaaaaaaaaaaaaaaaaaaa!!!! – Um grito de Mirna veio do andar de cima.
Mike e seus pais subiram correndo desesperados as escadas, e foram até o quarto da menina. Mirna chorava, ela estava visivelmente chocada encostada num dos cantos da parede.
- O que foi querida? – perguntou a mãe.
Enquanto os pais consolavam a menina, o adolescente se aproximou da caixa. Lá estava a cabeça podre e gélida de Jhonatan, com a boca aberta e duas fendas negras no lugar dos olhos.
Mike saltou para trás, e quase caiu por não ter o braço esquerdo como apoio. Porém, percebeu que havia um bilhete escrito em sangue no local onde seria a língua. Com sua mão direita trêmula, pegou delicadamente o bilhete e leu:
- Agora só resta você.
Fantástico! Você é muito talentoso.
ResponderExcluirDeveria pensar em lançar um livro.
Grande beijo!
Fazia tempo que não lia uma estória tão legal!
ResponderExcluirParabéns, imprimi ela aqui e vou ler tudo novamente mais tarde.
abrax