Muitas coisas passaram pela cabeça de Mike. Não sabia o que pensar. Jhonny estaria pregando uma peça, ou algo terrível realmente estaria acontecendo? Incrivelmente a segunda opção era a que não se recusava a sair de sua cabeça. De uma coisa estava certo, não poderia ficar ali esperando, deveria procurá-lo pela casa. O garoto voltou ao seu quarto para pegar a lanterna, verificou se estava funcionando, afinal a bateria não havia sido recarregada desde que saíra de casa para a aventura no trem.- Eu sabia que não devíamos ter aceitado ficar nessa casa, eu sabia. – Pensou o menino, que apesar de ser o mais corajoso da turma, já tinha lágrimas escorrendo de seu rosto pálido.
Mike, com apena a luz da lanterna ligada foi descendo as escadas do velho sobrado. Preferiu deixar os interruptores do andar de cima desligados, afinal se algo errado estivesse mesmo acontecendo, iria preferia que o casal de velhos acreditasse que ainda dormia. O andar de baixo era pura escuridão, estava impossível enxergar um palmo a frente de seu rosto. Segurando no corrimão, foi descendo passo a passo os degraus com apenas as meias nos pés, não queria fazer barulho. O feixe de luz oriundo da pequena lanterna fitava os degraus que pisava, e às vezes até arriscava ir com a luz mais a longe.
Já no último degrau, apesar de toda a escuridão que o cercava, percebeu que a porta do porão estava aberta. Devagar caminhou até ela. Seu corpo todo tremia. Ele lutava contra si mesmo para usufruir uma coragem que não tinha. Encostado na porta, Mike passou a luz da lanterna lentamente pela pequena escada que dava ao piso. Por alguns segundos estava prest
es a desistir e dar as costas à parte inferior da casa, quando então, escutou um gemido oriundo daquele lugar frio e pavoroso.Naquele instante, o garoto loiro sentiu um frio na barriga, e instintivamente, virou-se novamente na direção do porão. Inspirou fundo o ar, e começou a descer as escadas. Quando enfim chegou ao piso frio, começou a procurar com a lanterna de onde vinham aqueles gemidos horripilantes.
- Tem alguém aí? Estou aqui para ajudar. – Sussurrou.
- Hummmm... Hummmm...
Mike sentiu um calafrio ao iluminar o local. Um menino gordo estava amarrado a uma cadeira com os olhos e a boca rudemente costurados. Era seu amigo Jhonny.
- Jhonny, o que fizeram com você? Meu Deus! Não se preocupe eu vou te tirar daqui, vamos ficar bem. – Mike sabia que não seria tão fácil assim, mas tinha que dizer algo para reconfortar o amigo. Ele tentou soltá-lo, mas só conseguiria com alguma lâmina que cortasse as cordas.
Enquanto procurava algo afiado, escutou vozes no primeiro andar se aproximando, e Luzes se acendendo. Desesperadamente Mike procurou um lugar para se esconder. A iluminação que agora passava pela porta, deixava o porão suficientemente clareado para que percebesse uma cama velha encostada em uma das paredes. Antes que o casal de velhos descesse até lá, conseguiu se jogar em baixo dela. Alda e Nicanor carregavam outro corpo, o do maquinista do trem.
- Ei seu velho burro, onde vamos colocar esse corpo? Se a cama estivesse aqui do lado poderia deitá-lo nela.
- Não reclame, ela está ali no canto, vou colocá-la mais perto do menino. – Nesse momento Mike, entrou em desespero. Afinal se Nicanor arrastasse a cama ele seria descoberto. Entretanto, quando Nicanor se posicionou para arrastá-la, a velha chamou sua atenção novamente.
- Não precisa, deixe-o em cima do freezer mesmo. Onde esta a faca? Quero minha faca seu idiota! – Nicanor olhou para uma parede que estava repleta de facas, cutelos, serrotes, entre outras coisas que poderiam decepar qualquer ser vivo.
- Como não vi isso! – Pensou Mike observando toda a cena.
- (Risos) Meu maquinista lindinho, você se importa se eu arrancar alguns dedinhos? Não? Responda-me seu infeliz dos infernos! – Alda estava loucamente furiosa. Sadicamente começou a decepar os d
edos do maquinista morto, como se ele houvesse a ofendido profundamente. O velho apenas assistia.- Esses velhos são doidos, preciso dar o fora daqui. – Mike olhou a porta aberta, e logo após para seu amigo agonizando na cadeira com o rosto costurado. Não podia deixá-lo ali com aqueles lunáticos. – Enquanto pensava no que fazer, viu Alda guardar os dedos do maquinista em uma espécie de pode plástico.
- E você meu netinho, por que me abandonou? – Agora ela falava com Jhonny na cadeira. Era possível, mesmo com os olhos costurados, ver lágrimas escorrendo entre as linhas molhadas de sangue por sua roupa. – Você me fez tão infeliz, eu chorei tanto. Mas agora você não vai mais se afastar de mim, porque não pode mais ver. O que? Você ainda pode correr? Não pode não! Não pode! Nicanor segure a perna dele com força, vamos! – O velho prontamente agarrou a perna de Jhonny enquanto a velha buscava o serrote.
- Seu pirralho fujão, agora você não vai me deixar mais! – Alda começou a serrar insanamente a perna de Jhonny em uma altura um pouco baixo dos joelhos. O sangue jorrava enquanto ele se contorcia na cadeira agonizando em dor. Mike chorava baixinho com os punhos cerrados.
- Não posso agüentar isso, eu não posso fazer nada! – Rapidamente o menino saiu debaixo da cama e correu pela porta aberta.
- O que? O outro fedelho está querendo fugir! Vá pegá-lo imbecil – Ordenou a mulher com sangue coberto por todo seu corpo, e Jhonny, já desmaiado a sua frente.
Mike correu em direção à saída, mas a porta da frente estava trancada. Ao perceber que estava sendo perseguido pelo velho, subiu desesperado para o segundo andar e se trancou em seu quarto. Poucos segundos após prender-se, Nicanor estava do outro lado espedaçando a velha porta de madeira com machadadas. O garoto começou a procurar algo que pudesse usar como arma, e em uma das gavetas encontrou uma faca de estilo punhal. Não tinha outra opção, ficou ao lado da entrada do quarto se escondendo para surpreender o velho. Mas estranhamente, o barulho do machado parara.
O garoto, outrora valente, esperou alguns minutos até criar coragem para olhar. Vagarosamente foi colocando a cabeça entre as fendas criadas pelo machado. Nada. Achou melhor nã
o arriscar olhar mais a fundo, e se afastou da porta. Ao virar o rosto em direção à janela do quarto, percebeu rapidamente uma sombra passando, e instintivamente saltou para trás com o lancinar do machado que lhe acertou o braço. O velho subira até seu quarto tacitamente pela janela. Após o golpe, o braço esquerdo de Mike teve o osso quebrado, e estava agora balançando solto, apenas ligado por nervos. O velho se posicionava para dar a machadada final, quando escutou algo que o distraiu.- Ei seu idiota, você está destruindo minha casa! – A velha estava atrás do que sobrara da porta analisando o estrago. – Aproveitando o descuido, o menino segurou firme o punhal e cravou-o no pescoço de Nicanor, que soltou o machado e iniciou uma dança da morte pelo quarto jorrando sangue para toda parte.
- Além de quebrar minha casa, agora a está sujando toda! – Gritou a velha.
Mike foi até a janela ver por onde o velho havia subido, e percebeu uma escada que ligava a sacada, até a grama rala do lado de fora. Sem a ajuda de um braço, ele tentou, mas a chuva que caia não ajudava muito, e as gotas que pingavam em seu braço dependurado eram como facadas. E em uma delas, o garoto despencou por uns três metros, caindo de costas no chão.
-Arggg... Preciso correr, não quero morrer aqui. – Disse a si mesmo enquanto se levantava e começava a correr, não parou nem mesmo para ouvir o que a velha o dizia da sacada.
- Alemãozinho desgraçado! Covarde! Volte aqui pra salvar seu amigo balofo! – Foi o que ela gritou.
Alguns minutos depois, exaustivamente cansado, afinal havia perdido muito sangue e não tinha forças para caminhar. Olhou para um barranco, e abaixo, muitos carros transitavam pela pista. Tentou gritar pedindo ajuda, mas não tinha voz. Com o corpo mole, percebeu uma luz se aproximando rapidamente por detrás, Mike não tinha forças para virar, e apenas fechou os olhos esperando o pior. Um carro em alta velocidade, com Alda ao volante, o acertou com tamanha força que o fez
rolar pelo barranco.O menino rodou várias vezes até parar ao lado da pista. Deitado de costas para o chão, e com os olhos voltados para o céu. Ele não sentia mais o braço, e a chuva que molhava seu corpo, de certa forma, era até acolhedora. Nada mais importava agora, ia morrer. Cerrou os olhos, e esperou, esperou, e esperou muito tempo. Entretanto não foi a morte que veio. Ao abrir os olhos percebeu uma mulher repleta de sangue carregando-o.
Continua...
Simplesmente fantástico.
ResponderExcluirAdoro seus contos, parabéns!
Continua!!
ResponderExcluirMuito bom!
Ta demorando demais!
ResponderExcluirQue raiva! kkkkk
ta parecendo novela! Sem contar que vc sempre para na melhor parte.
bjoo,
aguardo a quarta parte.
Essa demora é horrivel!
ResponderExcluirPosta logo a quarta parte!!!
Obrigado a todos por lerem.
ResponderExcluirEstou adorando escrever esse conto.