Em meio há um beco escuro, posso avistar crianças em molambos, dormindo amontoadas umas as outras para se afugentarem do frio noturno, que há essa hora já estava congela
ndo as árvores mais altas da alameda. É difícil imaginar que um dia eu já tenha sido como elas, uma criança repugnante, de olhar baço, caminhando pelas ruas trajando farrapos. Posso recordar-me também de um barrete de uma fetidez altamente nociva, que provavelmente, alguma antepassada nojenta haveria de ter feito. Na rua, as pessoas me conhecem como “Saqueador de almas”, porém, prefiro que me chamem de “Purificador”, pois é isso que sou, um purificador! Espero todos os dias o momento em que as ruas se tornam tácitas para começar minha caça. Às vezes capturo idosos mórbidos, outras vezes crianças mirradas, e em dias mais inspirados, levo alguns bêbados comigo. Freqüentemente, penso que mesmo se não me pagassem os 100 euros por cabeça, faria o serviço mesmo assim, pois a cidade precisa ser limpa, e afinal, eu sou o “Purificador”.Eslovacos, canibais safados! Compram meus corpos, corpos que suplanto todos os dias desde que me assumi insólito, isolado deste mundo de pessoas com faros subjetivos de eloqüência. Balela! Ment
ira! São todos porcos! Enfim... Os corpos são entregues num galpão aqui perto, nunca me deixam avistar a retirada dos órgãos, porém, às vezes quando demoram a pagar, permaneço rente à porta, para ouvir o rascante da serra elétrica cortando os corpos já lívidos.Apesar de estar a quase 10 anos exercendo tal serviço, ainda em meus passeios noturnos vejo muita sujeira, a cada aléia, um lixo novo. Por favor, não me tenha como um algoz da madrugada, pois apenas realizo meu trabalho. Não admito olhares judiciosos sobre mim. O que faço, não diverge do modo furtivo como molestam bovinos, suínos... Ou quando arrancam vorazmente o bico de uma ave para alimentá-la por canos, engordando-as, e tendo finalmente o miserável desfecho nas fezes humanas! Hipócritas, isso que são! Não espere alguma misericórdia, ou qualquer tipo de epifania. Apenas peço que me deixe terminar o serviço, meu obséquio noturno.
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