sábado, 19 de setembro de 2009

Coração singelo

Dores. Era isso que sentia o pequeno Juca todos os dias no leito do hospital. Garoto de cinco anos, pouca experiência de vida, porém de uma natureza singela fora do comum. Juca estava com câncer, e já haviam se passado três meses desde o dia que o menino pisara pela primeira vez naquele hospital.

- Uma semana, é isso que o menino agüentará. – disse o médico por detrás da porta. A mãe, em meio a lágrimas, agradeceu todo esforço feito pelos médicos nesse período que ele estivera lá. Dona Leonor não há do que se queixar, seu filho sempre esteve bem cuidado.

A porta se abre, a pobre senhora caminha em direção ao filho e como num último modo de transpassar seu amor, pede a ele que faça qualquer desejo. Independente da dificuldade, ela haveria de realizar. A criança, sem grandes cobiças, lembrou-se de uma propaganda do novo circo na cidade, e assim pediu à mãe que o levasse.

Já era noite quando Dona Leonor chegou ao circo com seu filho. Sentaram-se na primeira fila. Pipoca, refrigerante, algodão doce. Esta noite não voltaria a se repetir, então teria que ser especial. Ao adentrar o palco os enormes animais, os olhinhos de Juca brilhavam como se aquilo fosse o ápice do entretenimento. A cada brincadeira do palhaço, uma nova gargalhada. A mãe do garoto fabulava sorrisos, mas por dentro o coração se flagelava.

Ao Final do espetáculo, o menino foi levado para conhecer todos os artistas. Um fascínio tomou conta do jovem. Realmente esta noite havia sido única. Após todos aqueles momentos, a hora de Juca retornar ao hospital havia chegado. Juca novamente voltaria a se recolher.

Nas próximas duas semanas que seguiram, Juca sonhou com todos aqueles personagens, o palhaço com suas cambalhotas, o mágico com pássaros dentre a capa e um enorme coelho em sua cartola. Os animais enormes... Por esses Juca tinha uma paixão peculiar, principalmente pelo elefante atroz.

- Alô, senhora Leonor? Venha para o hospital urgente! – anunciou o médico pelo telefone. A pobre mãe correu sem dar satisfações de um de seus dois empregos, cuja renda servira para pagar os meses de internamento de seu filho. Dona Leonor adentrou a instituição, e seguiu direto ao quarto do seu filho. O medico estava ao lado do menino e dizia a tão temida frase, - Ele esta partindo... Sinto muito.
Dona Leonor em meio a lágrimas segurou a mão de seu filho, enquanto seus olhinhos iam se fechando para sempre.
– Meu filhinho, não se preocupe, papai do céu vai te guiar entre as nuvens para um lugar bonito. – Assim diz a mãe, que antes de usufruir silêncio, escutou o filho dizer:
- Mamãezinha, obrigado por tudo. Não se preocupe comigo, agora vou brincar com essas crianças que estão aqui no quarto junto dos palhaços, elefantes e mágicos. Eles irão me levar para comer pipoca mamãe... Levarão-me para andar de elefante... – E assim o silêncio pairou no quarto.

2 apreciações:

  1. simplesmente lindo!
    Amei!
    Parabéns Gabriel por mais esse talento!

    bjos!

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  2. Ai que triste .
    Mas muito lindo, muito lindo mesmo !

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